

Na última formação Mainumby, para fortalecimento da atuação das educadoras e educadores com crianças e adolescentes do segundo setênio, a atividade partiu do princípio da salutogênese, buscando compreender como os ritmos, as relações, as experiências e o acompanhamento das diferentes fases do desenvolvimento podem fortalecer crianças e adolescentes e contribuir preventivamente para a saúde mental. Como recurso pedagógico, foram utilizadas as estações do ano como imagem dos diferentes estados e momentos da vida humana. Por meio de uma vivência corporal, os participantes percorreram circularmente as estações, utilizando diferentes sons e movimentos para representar suas características. A experiência possibilitou refletir sobre as mudanças de humor, emoções e relações, compreendendo que, assim como na natureza, a vida humana também apresenta diferentes ciclos e momentos.
A partir dessa vivência, o grupo refletiu sobre a importância dos ritmos cotidianos — acolhida, roda rítmica, movimento, versos, atividades pedagógicas, alimentação e momentos de fechamento — como elementos que oferecem segurança, previsibilidade, vínculo e sustentação ao desenvolvimento. A proposta foi compreender que esses cuidados cotidianos podem contribuir para que crianças e adolescentes desenvolvam recursos internos para atravessar momentos de tristeza, recolhimento e dificuldade.
Em seguida, foi realizada uma dramatização de uma situação de sofrimento intenso e pensamentos suicidas. Um dos coordenadores representou um adolescente em crise, permitindo que os demais participantes experimentassem diferentes formas de aproximação e escuta. As primeiras tentativas de diálogo foram rejeitadas, até que um educador encontrou um ponto de conexão a partir de uma experiência concreta e significativa para o personagem. A vivência possibilitou refletir sobre a importância de estabelecer vínculos e encontrar caminhos singulares de aproximação em situações de sofrimento.
Na plenária, também emergiram reflexões sobre gênero, cuidado e disponibilidade para a escuta. Observou-se que somente os homens haviam se aproximado inicialmente da pessoa que estava no centro da roda, enquanto algumas mulheres relataram não terem se sentido à vontade para realizar essa aproximação.
Por fim, a discussão avançou para aspectos objetivos sobre como abordar, acolher e encaminhar situações relacionadas à saúde mental. Reforçou-se que o papel do educador não é terapêutico, mas envolve observar, reconhecer sinais de sofrimento, acolher aquilo que se apresenta e buscar os encaminhamentos adequados. Foram discutidas situações em que uma conversa e um acompanhamento educativo podem ser suficientes e aquelas em que é necessário acionar profissionais especializados, serviços de saúde e a rede de proteção, especialmente diante de situações de maior gravidade ou risco.
A ação possibilitou, dessa forma, trabalhar o Setembro Amarelo a partir de uma perspectiva pedagógica, preventiva e vivencial, articulando desenvolvimento humano, ritmos, vínculos, escuta, acolhimento e encaminhamento responsável. A experiência reforçou a importância de preparar os educadores não apenas para reconhecer situações de sofrimento, mas também para compreender seus limites de atuação e saber construir, quando necessário, uma ponte segura entre o espaço educativo e a rede especializada de cuidado.
Texto de Rogério Coutinho, Coordenador de Práticas Sociais
Desenvolvimento integral também passa pela saúde mental






Nos territórios em que atuamos, falar de saúde mental também é falar das condições concretas de vida.
Desigualdade social, racismo, violência, insegurança, identidade, pertencimento e dificuldades de acesso a direitos atravessam experiências, relações e perspectivas de futuro. E, muitas vezes, quem vive esses sofrimentos ainda não consegue nomear o que sente ou não sabe onde encontrar escuta e apoio.
É nesse cenário que atua o Projeto Regenera.
Por meio de atendimentos psicoterapêuticos individuais e atividades coletivas, o projeto cria espaços de escuta, reflexão e fortalecimento emocional. No primeiro semestre de 2026, foram realizados 254 atendimentos psicoterapêuticos individuais a jovens e adultos dos programas Tecendo o Futuro e Jovem Aprendiz. Desde julho, o cuidado também foi ampliado para a infância, com uma nova frente de acompanhamento em psicomotricidade que alcança cerca de 120 crianças de 6 a 14 anos do Nossa Ciranda Horizonte Azul.
Neste Setembro Amarelo, uma das atividades realizadas foi o “Manual de Sobrevivência para os Dias Difíceis”.
A proposta convidou os participantes a refletirem sobre situações de sofrimento em diferentes momentos da vida e sobre como questões sociais, de gênero e diferentes formas de violência também atravessam a saúde mental.
Em grupos, foram construídas estratégias de enfrentamento e formas de buscar apoio, seja por meio da rede de apoio, seja pelo fortalecimento do eu, diante de situações como:
“Quando parece que ninguém me entende.”
“Quando o futuro me assusta.”
“Quando estou escondendo que não estou bem.”
As situações trabalhadas não foram apresentadas como causas diretas, mas como experiências de sofrimento que podem exigir atenção e cuidado, considerando a complexidade e os múltiplos fatores envolvidos.
Mais do que oferecer respostas prontas, o encontro abriu espaço para escutar, reconhecer, refletir e construir caminhos de cuidado.
O Setembro Amarelo amplia uma conversa necessária e reforça que o cuidado em saúde mental precisa estar presente durante todo o ano.
O Projeto Regenera conta com o apoio da SumUp, nossa parceira no fortalecimento de iniciativas de cuidado e desenvolvimento no território.
Se você está passando por um momento difícil, o CVV — Centro de Valorização da Vida oferece apoio emocional gratuito, 24 horas por dia, pelo 188. Peça ajuda.
Texto de Stefany Mota, assistente de Relações Institucionais
O fortalecimento da equipe pedagógica para acolher as crianças e suas famílias






Quando comecei a pensar em uma proposta para o Setembro Amarelo, quis partir de algo que faz parte do nosso cotidiano: o trabalho das professoras e auxiliares de desenvolvimento infantil e o quanto elas passam os dias cuidando de outras pessoas.
Pensei em vários assuntos que poderia abordar sobre saúde mental. Pesquisei, estudei… E cheguei à conclusão: talvez o melhor fosse não levar nenhum assunto específico.
Se a minha intenção era proporcionar um momento de cuidado, leveza e acolhimento, não queria transformar aquele encontro em mais uma formação em que elas precisassem sentar, ouvir, refletir e produzir alguma coisa. Queria que elas simplesmente pudessem estar.
Por isso, escolhi levar três grupos, em três manhãs, para o Clube Guarapiranga, um lugar tão próximo de nós e, ao mesmo tempo, que muitas vezes acabamos acessando pouco. Um espaço muito bonito, com árvores, gramado, uma vista para a represa e um ambiente que naturalmente nos convida a desacelerar.
Preparei um café da manhã com frutas, bolos, pães e sucos, e organizamos um espaço para que pudéssemos conversar e passar um tempo juntas. O grupo era em sua maioria mulheres, mas também contou com a participação do Claudiney, da manutenção, e do voluntário Juliano.
Enquanto conversávamos, cada uma teve a oportunidade de receber uma pequena massagem nos ombros e pescoço, criando momentos de relaxamento no meio da conversa.
Para que esse cuidado pudesse continuar, preparei uma receita de escalda-pés e montei um pacotinho para cada uma. A intenção era que, ao chegar em casa, pudessem reservar alguns minutos para si e se lembrar de que também merecem cuidado e descanso.
Conversamos sobre a vida, sobre coisas do cotidiano, compartilhamos histórias, demos muitas risadas e também tivemos momentos de escuta. Não havia uma pauta fechada. Não havia uma resposta certa. Havia apenas um espaço para estarmos juntas.
Ao final de cada encontro, demonstraram gratidão pelo momento. E eu também saí muito feliz, porque senti que consegui oferecer o que tinha imaginado no início: um pequeno momento de cuidado para quem cuida todos os dias.
Texto de Leila Mendes, Coordenadora Pedagógica Infância Querida Horizonte Azul
O tema Setembro Amarelo também foi tratado nos diversos programas pedagógicos e de saúde da Monte Azul, como Tecendo o Futuro, Casa Angela, Ambulatório Monte Azul e Rede Assistencial SUS.
