

Poesia de Laudicéia Almeida, Enfermeira UBS Jardim Souza
Em dezembro de dois mil e cinco,
entrei por uma porta
sem saber que, ali, começaria
uma das maiores histórias da minha vida.
Cheguei como Agente comunitária de saúde,
com as mãos dispostas a servir
e o coração ainda aprendendo
a dimensão da palavra cuidar.
Dois anos depois,
a vida me chamou para um novo lugar:
Auxiliar de Enfermagem.
E eu fui…
crescendo, aprendendo,
me transformando por dentro.
Até que, alguns anos mais tarde,
uma nova semente floresceu:
tornei-me Enfermeira.
E há doze anos
é nesse lugar que continuo,
não apenas exercendo uma profissão,
mas vivendo uma missão.
Foram vinte e um anos
dentro da mesma história,
e, em todo esse tempo,
uma sensação sempre me acompanhou:
eu estava sendo gerada.
Gerada como quem cresce
protegida por um útero,
nutrida por valores,
fortalecida pelo amor,
preparada lentamente
para nascer todos os dias
um pouco mais humana.
E esse útero tem nome.
Associação Comunitária Monte Azul.
Um lugar onde aprendi
que cuidar não é apenas tratar feridas,
medir sinais ou aliviar dores.
Cuidar é olhar para o outro
e enxergar sua humanidade.
É oferecer amor,
mesmo quando ele ainda não sabe recebê-lo.
É respeitar o tempo do outro,
confiar mesmo diante das incertezas,
persistir quando seria mais fácil desistir.
Foi ali que compreendi
que não precisamos esperar
que o outro esteja preparado
para receber aquilo que temos de bom.
Podemos simplesmente plantar.
Plantar amor.
Plantar respeito.
Plantar confiança.
Plantar resiliência.
E acreditar.
Porque nem sempre veremos imediatamente
a árvore que nasce da semente que lançamos.
Mas se cultivarmos dentro de nós
algo verdadeiro, bonito e bom,
talvez o outro descubra,
ao nos olhar,
que também é possível florescer.
E nessa caminhada,
há uma mulher cuja presença
atravessa minha história
como raiz profunda:
Senhora, Ute Cremer:
A geradora.
A mulher que ajudou a semear
esse jeito tão humano de cuidar.
A ela, minha eterna gratidão.
Porque seu legado não ficou apenas em palavras.
Ele vive nas mãos que cuidam,
nos olhos que acolhem,
nas pessoas que acreditam,
nas histórias que se transformam.
Vive em mim.
E talvez seja esse o maior presente
que uma trajetória pode oferecer:
perceber que, enquanto cuidávamos do outro,
também éramos cuidadas.
Enquanto ensinávamos,
também aprendíamos.
Enquanto transformávamos,
também éramos transformadas.
E assim, depois de vinte e um anos,
olho para trás
e reconheço cada versão de mim:
a Agente comunitária que chegou,
a Auxiliar que cresceu,
a Enfermeira que floresceu,
e a mulher que hoje compreende que sua profissão é muito maior
do que um cargo.
É uma história de pertencimento.
É uma história de amor.
É uma história de legado.
É uma história de transformação.
E ainda sinto…
como se a Senhora Ute, fosse esse grande útero, a história
que me acolheu,
me alimentou de valores,
me fortaleceu nas dificuldades
e me ensinou a nascer
um pouco todos os dias.
Hoje, talvez eu não seja apenas
alguém que passou por essa história.
Eu sou parte dela.
Carrego em mim
um pedaço de tudo que vivi,
de tudo que aprendi,
de cada pessoa que toquei
e de cada pessoa que me tocou.
Carrego Senhora, Ute.
Carrego o Monte Azul.
Carrego o cuidado.
E sigo caminhando,
com a certeza de que
um legado não é aquilo que recebemos.
É aquilo que escolhemos
continuar cultivando.
E enquanto houver em mim
amor para oferecer,
respeito para praticar,
confiança para semear
e esperança para sustentar,
o legado continuará vivo.
Porque fui gerada pelo cuidado.
E hoje,
com tudo o que eu sou,
também me tornei semente.
Semente de amor.
Semente de cuidado.
Semente de transformação.
Para que outros possam florescer.
Laudicéia, “sei que é difícil lembrar”…
Mas ficarei com o coração transbordando de alegria se, um dia, aqueles que passaram pelos meus cuidados me encontrarem em algum lugar da vida e disserem:
“Não me lembro mais do seu nome… faz tanto tempo, não é? Mas me lembro de você. Você fez algo de bom na minha vida.
No momento em que mais precisei, você esteve presente e não soltou a minha mão.”
E então, mesmo que o meu nome tenha se perdido na memória, saberei que a minha presença deixou uma marca.
Porque essa é a minha boa parte:
A minha semente.
E, se um dia ela florescer no coração de alguém,
mesmo que ninguém se lembre do meu nome,
a minha semente está presente ali.
